quarta-feira, 13 de abril de 2016

Mas vós, quem sois?

 

E Deus pelas mãos de Paulo fazia milagres extraordinários, de sorte que lenços e aventais eram levados do seu corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíam deles os espíritos malignos.

 

Ora, também alguns dos exorcistas judeus, ambulantes, tentavam invocar o nome de Jesus sobre os que tinham espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega.

 

E os que faziam isto eram sete filhos de Ceva, judeu, um dos principais sacerdotes.

 

Respondendo, porém, o espírito maligno, disse: A Jesus conheço, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois?

 

Então o homem, no qual estava o espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois e prevaleceu contra eles, de modo que, nus e feridos, fugiram daquela casa.

 

Atos dos Apóstolos, Capítulo 19

 

 

Pode acontecer que a fascinação exercida pelo mau Espírito seja de tal ordem que o subjugado não a perceba? Sendo assim, poderá uma terceira pessoa fazer que cesse a sujeição da outra? E, nesse caso, qual deve ser a condição dessa terceira pessoa?

 

"Sendo ela um homem de bem, a sua vontade poderá ter eficácia, desde que apele para o concurso dos bons Espíritos, porque, quanto mais digna for a pessoa, tanto maior poder terá sobre os Espíritos imperfeitos, para afastá-los, e sobre os bons, para os atrair. Todavia, nada poderá, se o que estiver subjugado não lhe prestar o seu concurso. Há pessoas a quem agrada uma dependência que lhes lisonjeia os gostos e os desejos. Qualquer, porém, que seja o caso, aquele que não tiver puro o coração nenhuma influência exercerá. Os bons Espíritos não lhe atendem ao chamado e os maus não o temem."

 

O Livro dos Espíritos

Questão 476

Paris, 1857

domingo, 3 de abril de 2016

O Argueiro e a Trave


"Misericórdia quero, e não sacrifícios."

"Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós. E por que vês o argueiro no olho do teu irmão, e não reparas na trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão."

Jesus (Mateus, capítulos 7 e 9)
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O perigo de tentar impor ao outro as nossas ilusões

Sílvia Marques

Uma das coisas mais complicadas na vida é desenvolvermos a alteridade. Alteridade é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Normalmente, analisamos as pessoas e as situações a partir das nossas opções, das nossas preferências e estilo de vida. Se sou passional, tenho dificuldade para entender uma escolha racional. Se sou racional, tenho dificuldade para entender uma escolha passional pois não agiria daquela forma.

Analisar as questões sob o nosso ponto de vista é algo razoavelmente corriqueiro e sem grandes consequências. Mas quando despejamos a nossa subjetividade em cima de um sujeito fragilizado, corremos o risco de aniquilar o outro sem nos darmos conta.

(...)

Uma das piores coisas que uma pessoa pode falar quando ouve um relato de desespero, é fazer quem sofre acreditar que merece o sofrimento vivido. É satanizar quem sofre. Mesmo que identifiquemos pontos falhos na conduta do sofredor, devemos ser muito cuidadosos no nosso julgamento porque quem está no fundo do poço não tem condições para ser sentenciado.

Porém, a pior parte dos julgamentos é quando eles são injustos e dizem respeito à subjetividade do interlocutor. Se reprimo uma conduta imoral da pessoa que sofre , o peso da minha crítica não é tão severo pois lá no fundo, quem agiu de forma imoral sabe que errou. Mas, quando tentamos ler a história a partir das nossas experiências e preferências, corremos o risco de cometer dois erros muito graves, que podem gerar consequências irreversíveis na vida de quem sofre: além de fazer uma leitura equivocada, podemos impor ao outro uma verdade que é nossa, que não tem nada a ver com a experiência que o outro viveu.

(...)

Podemos sim tentar ajudar o outro a se libertar de ilusões. Mas não temos o direito de impor as nossas ilusões ao outro como se ele fosse o reflexo do nosso espelho.

Fonte: Obvious